terça-feira, 19 de julho de 2011

O ultimo suspiro





Sua pele está pálida. Seus instintos, mortos, tal qual sua carne. Seus olhos vítreos deixam resplandecer a morbidez que cobre seus olhos negros como a mais amarga e insone madrugada. A mente entorpecida por uma dose excessiva de álcool parece não querer mostrar sinais de vida, por mais esquálidos que estes fossem. Sequer uma respiração, ou um leve espasmo muscular de seu rosto angelical encarnado em uma divina imperatriz.

Seus cabelos, de uma tonalidade loura e resplandecente, um ouro roubado do mais longínquo inferno, ameaça a desabar de seu coque caprichosamente arrumado. As vestes, de um vermelho sanguinolento recobertas por rendas finíssimas e negras, parecem intactas. Seu longo vestido, submetido aos esforços de um espartilho, deixa à mostra seus seios de dimensões pequenas: lívidos, macios, tenros qual par de pêssegos seguros pendendo de uma árvore amaldiçoada. Sua boca ligeiramente carnuda e tentadoramente lasciva jaze aberta, esperando que a morte lhe tire o último suspiro.

O beco escuro, úmido e com um odor que beira ao fétido, resguarda seu corpo. O chão recoberto por pequenos blocos de basalto sustém os casarões mais charmosos: sua arquitetura fina, no centro da cidade, rodeia o prostíbulo onde ela deveria estar. Mas, em seu interior orgástico, não está: está estendida sobre algumas caixas de madeira, enfileiradas como uma cama à espera da meretriz mais desejada.

Um homem esguio, com músculos poderosos, aproxima-se com alguns passos vagarosos, qual felino prestes à abater a presa que há muito almeja. Os trajes finos de um conde ocultam um príncipe de origem desconhecida, advindo dos confins da Europa. As calças ligeiramente azuladas, o fraque de mesma tonalidade e a tradicional bengala Stock, parecem farfalhar na imensidão trevosa. Os cabelos deste distinto figurante são longos, ondulados e de um castanho escuro brilhante; o que não é comum para os homens desta localidade, que mantêm seus cabelos sempre muito bem aparados e deixam, no máximo, suas barbas cobrirem o semblante. Este homem, de distintas atitudes, de distinto cabelo e de olhar estrangeiro, deixara crescer em sua face longos e macios bigodes. Seu olhar castanho e felino contempla demoradamente a figura esticada sobre o amontoado de caixas, com a coluna e cabeça ligeiramente inclinadas para trás e com suas pernas em posição tortuosa, como protegendo um dos maiores segredos que uma mulher poderia manter – mas não esta. A barra do vestido esconde até mesmo parte dos pés envoltos por um sapato gracioso, de salto altíssimo, que até as mulheres mais habituadas a ele sentiriam dificuldades em equilibrar-se, ainda mais com uma dose excessiva de absinto a correr desenfreadamente pelas veias sedentas de utopias.

Ele passa sua língua ao redor dos seus lábios. Uma refeição farta e suculenta. Um delírio enaltecido pelos deuses romanos. Uma sereia em corpo humano, entorpecida pelos murmúrios algozes de um pesadelo infindável. Uma carcaça curvilínea, de medidas que extrapolam o padrão tradicionalmente esguio de qualquer meretrício. Os olhos amendoados, sepultados pelas pupilas apertadas como fendas, deliciam-se com aquele belo pomo unindo a podridão do ambiente à beleza descomunal de uma devassa oferecida em sacrifício em um altar de egos e gozos intermináveis.

O corpo ágil do soturno homem subitamente está em cima a imóvel donzela encarniçada. O perfume que aquele corpo morto exala é quase tão inebriante quanto o feitiço que aquela luxúria intrínseca lança. O toque sedoso de seus lábios embevecidos faz com que o corpo volte a mostrar alguns ínfimos sinais de vida. Sua pele lívida deixa transparecer ligeiras pulsações e, consequentemente, uma ligeira cor rosada enrubesce timidamente a figura estendida.

- Isso! Volte... para mim!

Sua ordem lançada em uma magia demoníaca faz com que o corpo imóvel volte a vibrar. Mas são apenas os instintos carnais que assolam a carcaça abandonada. Apenas os instintos para manter-se vivo e a percepção dos cinco sentidos estão ativos. A consciência dissipou-se para nunca mais.

Seus lábios seguem em direção aos dela, e um maquiavélico beijo que exala podridão demora-se com o passear infindável de sua língua pelo território ainda inexplorado por ele. Sua mão direita segue para acariciar o rosto imóvel, e silenciosamente a mão esquerda deixa tombar a bengala. Ambas as mãos correm para o peito rodeado por jóias falsas. Ele acaricia o tórax cadavérico como se assim estivesse a afagar o baú do mais valioso tesouro. Suas mãos de unhas longas seguem para as costas da mulher e tentam desesperadamente afrouxar o espartilho, e logo o corpo espremido sente a ligeira liberdade das amarras das vestimentas. Com algum esforço, o homem consegue livrar também os seios encarcerados. Seus olhos rejubilam. Suas mãos acariciam demoradamente cada um deles, e um êxtase delicioso invade-o de assalto quando percebe que os pomos imóveis ficam enrubescidos, e os mamilos incham e endurecem. Um calor crescente pulsa nos seios à mostra. O homem curva seu corpo para trás, mostrando uma flexibilidade admirável. Cerra seus olhos e morde seus lábios, imaginando sua satisfação que mesmo sendo breve, teria o gosto legítimo da eternidade.

Volta-se violentamente para os seios a explodir em um prazer cálido. Sua boca fria beija vagarosamente a pele doce e suave, e alcança os mamilos primeiro com suavidade e, posteriormente, com violência. Sente o gosto cândido da pele a estremecer-se, e afoga-se ainda mais nos seios cada vez mais rubros. Ele morde, suga, deixa a ponta de a sua língua encharcada rodear as auréolas e em seguida, suga como um rebento abandonado. Após uma mordida leve, que aos poucos é mais intensa e cruel, os mamilos deixam verter uma gotícula de sangue.

Um leve gemido de prazer é solto pelas cordas vocais masculinas, e seus lábios ásperos voltam-se para os morros pontiagudos, que agora vertem sangue. Um delicado beijo, depois uma sucção violenta... e logo seu membro inchado pulsa com tamanho êxtase que mal pode se conter dentro de sua calça.

Enquanto sua boca enaltece movimentos entre ambos os seios rijos, retesados e trêmulos, sua mão esquerda passeia pela barriga imóvel e segue até o meio das pernas da morta-viva. Mesmo sob o pesado tecido do vestido, acaricia voluptuosamente a suculenta ferida. Movimentos que vão de cima para baixo, em uma carícia interminável, parece ordenarem que os sentidos renasçam ali também.

Afasta ligeiramente as pernas para que o seu corpo se encaixe ali e, ainda embriagando-se com o prazer dos seios, movimenta-se para melhor levantar a saia. Sua mão passeia e esfrega-se contra as pernas roliças, encobertas por uma cinta-liga. Seus lábios desligam-se dos seios e beijam vagarosamente a barriga, até que ele ajoelha-se novamente e contempla as pernas bem abertas. Suas mãos seguem para retirar a roupa íntima que envolve a virilha e, imbuído de uma selvajaria, ele rasga o tecido e deixa exposto o motivo de seu desejo. Os lábios fartos, transbordantes, em meio aos parcos e claros pêlos púbicos, fazem seu pênis ansiar ainda mais por adentrar aquelas entranhas e fazer com que ela ressuscite com um ligeiro movimento de uma forte estocada.Um único movimento empalador, um corte violento na direção horizontal: seria tudo para trazer aquele corpo lúbrico à vida carnal para os prazeres mais diabólicos.

Ele leva sua mão para sentir seu membro vigorar, mas ainda não o libera. Ao invés disso, segue para a doce ferida com a mesma sede que tinha quando sugava-lhe os seios.

Primeiro um beijo, em seguida uma leve sucção, uma lambida infernal e delirante. Sente a vagina gélida contorcer-se e transformar-se num cálido e tenro pedaço de carne. O clitóris, desabrochando tal qual uma rosa embebida no mais orgástico veneno, começa a inchar. Ele afasta os grossos lábios vaginais, enrijece sua língua e penetra-a na caverna insepulta. Sente as contrações involuntárias daquela caverna quando um corpo alheio ousa penetrá-la.

Quando sente o ácido fervente escorrer pela vulva, ele não mais agüenta e expõe seu órgão viril, teso e incandescente. Um órgão comprido, de aparência lisa e ligeiramente lustrosa em sua cabeça; com os pesados testículos frenéticos e os pêlos negros, eriçados. Este logo se perde entre a escorregadia abertura. Seus quadris empurram o pênis para o interior do antro envolvente, e ele faz com que a cabeça encoste na base do colo uterino. Um invólucro ardente, pulsante, qual boca maldita a mastigar, sem as presas, o alimento egoísta.

Sente os músculos de todo o seu corpo trabalharem, como uma chama incandescente faz a maquinaria da locomotiva puxar os vagões. Suas mãos agarram firmemente as ancas de sua meretriz, e logo as unhas compridas estão cravadas naquela carne tal qual uma águia agarra seu peixe.

Sua respiração torna-se ainda mais ofegante. O coração palpita com mais Ânsia. Sua face contorce-se. E o andamento enlouquecido a arregaçar a macia e elástica boceta termina em um gozo sepulcral. Seu gemido alto é abafado pela música saída de dentro do prostíbulo, como se a sinfonia de prazer fosse a sua própria voz empalada pela sinfonia do orgasmo.

Com a respiração ofegante, os sentidos inebriados, a boca entreaberta e a cabeça inclinada para trás, percebe que gotas de suor brotam dentro de sua roupa. O corpo trêmulo exala um calor que há muitos séculos não sentia igual.Os olhos estão cerrados com tamanha força que ele consegue visualizar pequenos focos incandescentes ocultos nas trevas de suas pálpebras.

Com um movimento vagaroso de seus músculos, tal qual um fugitivo que tenta se esquivar silenciosamente de um perigo iminente, ele tenta recuperar suas forças. Não retira seu órgão da cova infernal, não movimenta suas mãos. Apenas guia o olhar para o corpo ainda estirado a sua frente, que deixa seu rosto resguardar a mesma expressão cadavérica a qual ele anteriormente encontrara. Observa os seios inchados, com os mamilos dilacerados e o tórax brilhante. Vê os braços abertos da diva entorpecida, como se ela estivesse À espera de um príncipe trevoso que a possuísse.

Mais um longo silêncio. Desta vez, não escuta nem a música alta que extravasa as paredes, tampouco sua respiração tortuosa ou as batidas aceleradas de seu coração pérfido. Tenta encontrar algum manifesto no cadáver lúbrico: nenhuma piscadela, nenhum gemido, nem mesmo o dedo mínimo da mão consegue exprimir algum movimento. Apenas o coração frenético espalha pelo seu corpo o vinho rose de seu sangue, e a rósea caverna enlouquecida vibra e contorce-se, sugando ainda a espada afiada que lhe corta as entranhas.

Após a densa pausa, este distinto homem, de cabelos e unhas compridas, com olhar e pose característicos de estrangeiros, inclina-se e bebe dos mamilos o sangue que fizera verter. “As forças devem ser recuperadas” conjecturou, enquanto suga e bebe grandes goles do sangue que se fez em sua mais doce embriaguez. O gosto amargo, ligeiramente metálico e carnal daquela bebida rubra, faz com que seu apreciador prenda-se mais intimamente à vítima.

Os segundos passam-se com a velocidade de horas.logo, porém, sente uma leve tontura, e imediatamente distancia-se. “Absinto...”

Com algum custo, separa-se do corpo que os fizeram ser apenas um.

Recompõe-se e põe-se a vaguear pela escuridão.

A mulher nas trevas, nua, ensangüentada e com seu segredo lambuzado e exposto, parece não se valer mais de qualquer importância. A face antes rosada volta a morrer, porém a expressão macabra continua intacta.

E da boca entreaberta, vagamente pulsante, prende uma última mensagem a todos que quiserem compartilhar de sua embriaguez.um último suspiro é exalado antes que a Morte, desta vez em forma de ceifador, apodere-se de sua alma, pois seu corpo ela a acabara de possuir.


Autoria: Néliton Oliveira Santos
Data da ultima revisão: 17 de julho de 2011 - 22:56 horas
Este conto é parte da obra: Memórias de um Vampiro.
Especiais agradecimentos e dedicatória a: Cahethel, o anjo da sala wicca,
por sua colaboração involuntária e amizade.
Todos os direitos reservados, Lei Federal número 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
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Contato com o autor: nelitonoliveira@hotmail.com

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